7 pecados (acertos e erros) do Noé, Darren Aronofsky

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Darren Aronofsky é de longe um dos maiores cineasta da nossa geração. Ele um é cineasta de temas recorrentes, de filmes com discussões morais e personagens conturbados. Seus personagens estão sempre em busca da perfeição, tentando ultrapassar os seus próprios limites ou correndo atrás dos seus sonhos mesmo que isso os leve a destruição (a bailarina em busca da perfeição em “Cisne Negro”, o lutador que continua a lutar mesmo que possa morrer por isso em “O lutador” ou o matemático obcecado pela sua ciência no “Pi”). Aronofsky enfim é um diretor que abraça narrativas hora complexas (o transcendental “Fonte da vida”), hora simples (o soco no estomago chamado “Requiem para sonho”) mas como uma forma de estudar seus personagens e temas: o limite do ser humano, fio que separa o sonho e o desejo da loucura e o sofrimento. E em “Noé” isso não é diferente Aronofsky usa o texto bíblico como base para discutir questões existenciais e filosóficas como: limites, obsessão, fé e culpa.

Enfim a tantas críticas do filme por aí, não vou fazer mais uma. Vou apenas apontar alguns detalhes que me chamam atenção nesse filme:

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1. No filme Noé, que é interpretado muito bem por Russel Crowe, recebe os desígnios do “Criador” através de sonhos ao contrario da bíblia, onde Noé é instruído diretamente por Deus. Essa intervenção divina feita de forma indireta gera interpretações de Noé sobre os planos de Deus e deixa ainda mais difícil a tarefa para ele. Essa escolha dos roteiristas é fundamental para termos o grande dilema do filme. Porque dessa forma temos um Noé que é na verdade um ser humano comum, falho, obsessivo, cheio de medos e incapaz de entender por completo os desígnios do “Criador”. Esse recurso narrativo permite o filme fazer uma crítica clara ao fanatismo religioso cego, em certo ponto do longa Noé se tornar praticamente um lunático pronto a tomar decisões tenebrosas em nome Deus. Tudo isso movido pela duvida e errôneas interpretações dos desígnios divinos.

2. Uso de elementos mágicos aproxima o filme de um tom fantástico. Tom esse que encaixa perfeitamente com a aura desse universo proposto pelo diretor que usa anjos (guardiões) caídos do céu, animais inexistentes hoje (animais esses que talvez tivessem sido instintos no dilúvio), Matusalém (o homem mais velho do mundo, que no filme é quase um mago) tudo como se esse fosse ultimo contato com esse universo mágico (mais próximo do “Criador”). Sem falar na representação divina de Adão e Eva, que no filme surgem como seres brilhantes, quase aliens (parecem ter saído do filme “Cocoon”).

3. As atuações são bem acima da média do que é costumado a ver em filmes desse porte, talvez pelo fato de que o diretor tenha vindo do cinema independente. Russel Crowe sustenta no olhar a dor e sofrimento do seu personagem e Jennifer Connelly da toda dignidade que a sua personagem precisa. O filme também da espaço para que cada personagem se desenvolva e tenha seu arco dramático (mesmo que esse soe esquemático demais em alguns momentos). Mas grande mérito do filme em relação aos seus personagens está no fato de nunca julgar nenhum deles, até mesmo o vilão tem razões para ser quem é.

Enfim o uso de um antagonista é outra escolha mais que certa, não só para termos vilão a altura de Noé ou para também entendermos melhor a maldade que assola o mundo, mas sim para dar certo peso e complexidade ao filme. Uma vez que o vilão muitas vezes soa mais razoável que o próprio Noé.

4. O diretor demonstra domínio completo do seu trabalho hora evocando imagens belíssimas e grandiosas, hora mostrando toda a sujeira daquele mundo imerso na maldade ou de vez em quando exaltando a dor e culpa que atormenta Noé (diluvio com sons das pessoas morrendo é de uma força sintetiza toda essência e dilema moral do filme).

5. A sequencia em que Noé explica a criação: evocando o Big Bang, a teoria evolução em conjunto com o texto bíblico é muito criativa e inteligente.

6. Mas nem tudo são flores. O filme ainda sim é uma superprodução e nesse ponto o filme perde força por ceder a algumas concessões obrigatórias para filmes desse porte.

Primeiro: A obrigação de ter ação – Afinal o que adianta ter gigantes de pedra se eles não lutarem, né? Então da-lhe uma batalha a lá “Senhor do anéis”, que apesar de bem feita pouco acrescenta. Mesmo que ainda seja mais orgânica e faça mais sentido do que em coisas como “Alice nos País das Maravilhas” do Tim Burton ou “Branca de Neve e Caçador” onde as batalhas não fazem o menor sentido narrativo.

Segundo: Roteiro certinho demais, quase quadrado – Um personagem morre e parece ser uma decisão corajosa do roteirista e do diretor, afinal o momento é importante para o conflito entre pai e filho. Mas em certo ponto tudo vira uma desculpa para termos mais uma reviravolta, tudo em nome de mais uma cena ação. Enfim há fatos no roteiro que careciam de uma passagem de tempo melhor, pois do jeito que estão parecem acontecer só para justificar a próxima cena ação.

Possível spoliers (nem acho que seja, mas tem muita gente chata) em um dos diálogos finais o filme resolve explicar para o publico toda a mensagem do filme.

7. Noé nunca foi um filme bíblico, é na verdade baseado num poema escrito pelo diretor sobre o mito de Noé quando tinha 12 anos. Muito embora a mensagem bíblica esteja lá na integra, o problema aqui é que as pessoas tendem a ver apenas o texto reto (Noé não era assim! Ta diferente! Não tinha gigantes! Não foi assim que aconteceu!) e esquecem da essência. Se mensagem não tiver clara e em letras garrafais ninguém quer gastar tempo interpretando. Para quer pensar, né? O problema aqui ainda é maior, porque nesse caso não temos apenas alguém preocupado em passar uma mensagem e sim alguém a fim de interrogar e fazer pensar. Temos uma adaptação que mantém a essência, mas leva para outros ares e níveis as discussões sobre o ser humano, fé, obsessão, medo e etc.

Vão me desculpar mas arte não tem que ensinar nada, não tem que passar mensagem alguma ou apontar caminhos. Se ainda quiser tudo mastigado sugiro as minisséries da Record; Se quer algo realmente fiel fique com o texto original; Mas se quiser outro ponto de vista! Se quiser se questionar! Se não tiver medo disso vá ao cinema; Porque como cinema o filme se sustenta muito bem. O problema está nas expectativas e na veneração religiosa exagerada. (Afinal filmes sobre histórias reais podem ter adaptações; mitologias ou religiões sem ser as cristã também podem ser viradas de cabeça para baixo sem problemas; Mas Noé mais humano e questionador nem pensar).

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