A carruagem fantasma (1921)

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“A carruagem fantasma” conta a história de uma bondosa enfermeira Edit, voluntária do exercito da salvação, que está preste a morrer e tem como ultimo pedido ver Sr. Holm. Que por sua vez é um alcoólatra que tem um ódio gigantesco pelo mundo e as pessoas sua volta.

Enquanto Edit está à beira da morte, Sr. Holm está na rua com seus amigos bêbados conversando. Ele conta para seus companheiros de rua a assombrosa história de um homem que morrerá na noite de ano novo, um pouquinho antes da meia noite. Se tornando assim a ultima pessoa a morrer naquele ano. Por isso, como diz a lenda, esse homem se torna obrigado conduzir a “carruagem fantasma”, e vagar recolhendo todos os mortos daquele lugar durante aquele ano. (obs: Nesse ponto temos uma história dentro da outra, uma vez que é o homem que morre nessa história acima, que nos explica sobre a mitologia da “carruagem fantasma”).

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Mas até então, pouco sabemos sobre os personagens que nos foram apresentados. As tramas e conflitos apresentados, só tem seu desdobramento efetivo depois do trágico evento que coloca Sr. Holms frente a frente com condutor da fúnebre carruagem. Uma vez que ao encontrar “a morte” ele é obrigado a confrontar seus erros do passado e ver seu futuro. E é nesse ponto que filme nos mostra através flashbacks e flashforwards: quem foi o Sr. Holms. Como era relação dele com a sua família. E qual é verdadeira ligação entre ele à enfermeira Edit.

O primeiro ponto importante do filme a ser ressaltado é a construção psicológica dos personagens. Vide o personagem principal, Sr. Holm, que vai de homem de família com problemas de alcoolismo até se tornar um bêbado, doente, itinerante movido por um sentimento de vingança e ódio. Enfim, um personagem com várias camadas e alimentado por vários sentimentos conflitantes: a culpa em relação ao irmão preso, o ódio e a raiva pela família que foge dele (não sem justificativa) e etc. Enfim, um homem com uma visão de mundo mesquinha que tem seu ódio ampliado devido tudo que lhe acontece. O tipo de ser humano que prefere culpar o mundo e não a si mesmo pelos seus problemas.

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O longa é baseado no livro premiado da autora Selma Lagerlöff, talvez seja devido a essa herança literária de qualidade, a complexidade e riqueza na construção desses personagens.

A cena que melhor sintetiza dilema do filme e a força dos dois personagens principais, é aquela onde Holm destrói, rasga, o seu paletó que acabará de ser costurado pela bondosa enfermeira Edit. Essa cena deixa clara a dinâmica entre eles, de um lado temos uma bondosa, e cheia de fé, enfermeira que acolhe Sr. Holm (dando a ele onde dormir) e costura o paletó maltratado dele.

Ela costura aquela roupa como quem tenta também reparar, ajeitar, a vida dele. Ajuda-lo encontrar esperança naquele mundo sujo. Dar uma nova chance para ele. Uma vida nova.

Do outro lado temos um homem, vil e sem esperança, que rasga o paletó que ela costurou para ele de, na frente dela, não só para demonstrar sua falta de esperança, mas também para tirar a esperança dela. Como quem tenta rasgar a bondade que existe dentro dela.

O diretor, e ator, Victor Sjöström (ele interpreta o Sr. Holm) de forma muito inteligente, e ousada, usa um arsenal narrativo vasto e inovador, até para os padrões de hoje, para contar essa história: flashbacks, flashforwards, estrutura capitular, flashbacks dentro flashbacks, tramas paralelas que se cruzam, um clima onírico, jogo de luz e sombra belíssimo, sobre posições de imagens e etc.

Visualmente o filme é incrível. Seja no uso inovador da sobreposição de imagens, para criar o efeito fantasmagórico da carruagem e de seu condutor. Ambos transparentes, como figuras etéreas. Seja na fotografia expressionista, soturna e gótica. Seja nos figurinos e cenários, impecáveis. Tudo contribui para que o filme tenha um clima ao mesmo tempo onírico, como de um pesadelo, e crível, realista e opressor.
As cenas da carruagem andando sobre as águas ou do condutor atravessando paredes são de uma beleza e eficiência impressionante (imitadas até hoje).

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Enfim, é fácil notar a relevância, e a influência, desse filme na obra de grandes cineastas e na história do cinema como todo. A cena em que Holm tentar quebrar a porta com machado foi claramente homenageada em o Iluminado, por Stanley Kubrick. Bergman deixa claro que esse filme é o seu favorito e notável os ecos desse “A carruagem fantasma”, em todos os filmes dele, seja na forma de construir as cenas ou mesmo na temática. Os efeitos fantasmagóricos foram reutilizados em todos os filmes de fantasmas posteriores: Ghost, Caça fantasma e etc. O clima gótico foi reutilizado em O exorcista, do Willian Friedkin. E assim vai, de Spielberg a Tarantino.

Um clássico obrigatório para quem gosta de cinema! O percussor dos filmes de fantasma!

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