A Emoção Se Foi: Tributo a B. B. King.

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Por:Marcelo Lopes Vieira

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Ninguém melhor do que W. C. Handy, um dos pioneiros do Blues, para descrever este estilo musical: “o Blues veio do nada, da carência, do desejo”. Ninguém melhor do que B. B. King para servir de exemplo à acertada definição de Handy. Quando, em 1946, deixou a esposa (com que se casara para fugir da convocação militar), a lavoura e uma dívida de 15 dólares com o patrão, o jovem que começava a sentir os aromas da segunda década de vida era pleno desejo. Um desejo oriundo da carência de ter sido abandonado pelo pai aos cinco anos de idade, se tornado órfão de mãe aos nove anos e visto sua avó falecer aos dez, deixando-o na solidão em meio ao nada, entre as cidades americanas de Indianola e Greenwood. O adolescente Riley B. King, passou um período sozinho, ordenhando vacas e colhendo algodão, em troca de casa, comida e educação. Este panorama fez com que o Riley espalhasse a poeira do meio do “nada” em suas roupas, embotasse os olhos não de lágrimas, mas de puro desejo e partisse em busca de suprimir sua carência, realizando um sonho.

B. B. King: The Thrill Is Gone (1989)

Mesmo carregando este histórico de vida, Riley, já como o consagrado Rei do Blues, B. B. King, foi acusado de ter se vendido, praticando um Blues mais comercial. Justo ele que só pode comprar seu primeiro violão quase aos vinte anos, apesar de ter aprendido seus três primeiros acordes na igreja que frequentava e absorvido de seu primo, Bukka White, a malícia necessária ao blues que se praticava nas casas de shows da saudosa Beale Street. Justo B. B. King, que antes de ser conhecido por esta alcunha, descobriu que seu talento lhe renderia mais que a lavoura, enquanto desfiava seus acordes nas esquinas de Indianola, nas tardes de sábado. O que seus acusadores puristas não entendiam é que o Blues precisava evoluir para sobreviver e B. B. King ofereceu a profissionalização aos bluesmen, alegando que “se você é um músico de blues, tem de preparar uma boa embalagem para vender”. Olhando friamente, B. B. King só tomou para si o que as bandas inglesas dos anos 60 fizeram com o blues americano, sendo ovacionados por isto. Talvez por serem vistos como brancos reverenciando a música dos negros, não havia problemas.

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B. B. King e sua Lucille. A guitarra sussurrava em resposta às caricias do Rei do Blues.

Com esta visão diferenciada dentro de seu nicho, ele se tornou um popstar do Blues. Em novembro de 1964 já acumulava vinte singles de sucesso nas paradas, era assediado pelas fãs e olha que seu maior sucesso comercial somente ganharia as agulhas das vitrolas em 1969. Em verdade, aquele período de final de década, pós “verão do amor”, era adversa ao blues. Aqueles que não estavam imersos na psicodelia, se interessavam apenas pela soul music da Motown, a nova real música negra americana. Uma das únicas almas a passar incólume deste panorama foi B. B. King, que foi ovacionado por uma plateia em sua plenitude branca, dividindo o palco com bandas de rock como Moby Grape, no Filmore East, em 1968. A força de suas seis cordas só aumentou quando, em junho de 1969, gravou The Thrill Is Gone. Ao contrário do que pensam muitos, esta canção é um cover de um sucesso de Roy Hawkins, datado de 1951, período em B. B. estava trabalhando nas rádios americanas. Esta canção, trazia uma abordagem diferente de arranjos que ele costumava praticar, sem naipe de metais, com quarteto básico e órgão, enaltecendo uma melancolia mais simplificada, emoldurada pelo indefectível trabalho de guitarras e a poderosa voz de B. B. King, “curtida” pela poeira do interior sulista americano.

B. B. King: Sweet Sixteen

The Thrill Is Gone define magistralmente a forma como o Rei do Blues enxergava sua música: guitarra dilacerante, solos com precisão cirúrgica, nada de virtuose desnecessária e emoção, muita emoção.  Este estilo foi moldado ao longo dos anos e sua gênese pode ser marcada quando sai em busca de Sonny Boy Williamson, após voltar à lavoura, na aurora da década de 1950, e pagar a dívida com seu patrão. Ao encontrar o renomado bluesman, B. B. King, ainda como Riley, é convidado por Sonny a substitui-lo em um de dois shows marcados para o mesmo dia e hora, mas não sem um pequeno teste antes. Aos 23 anos, Riley B. King se via tocando pela primeira vez em uma rádio americana. O sucesso local foi imediato e sua forma de interpretar cativou os diretores da rádio WDIA, que alcançava os aparelhos do Delta do Mississippi, até New Orleans. Ganhou uma apresentação semanal de quinze minutos, onde era anunciado como Beale Street Blues Boy, apelido carinhosamente abreviado pelos fãs para “Bee Bee”. Devidamente batizado como B. B. King por seu pequeno, mas crescente, séquito de fãs, construiu seu reinado ao longo de mais de cinquenta anos de carreira como um homem de palco. Capitaneava shows que mais pareciam celebrações religiosas, sacando emoções da alma de seu público com cânticos do quilate de Everyday I Have The Blues, Sweet Little Angel, Three O’ Clock Blues e Sweet Sixteen.

BeeBee King

B. B. King em seus tempos de rádio WDIA. 

A importância de B. B. King é indiscutível, sendo nomes como Eric Clapton, Keith Richards, Jeff Beck, Jimmy Page, Jimi Hendrix e George Harrison, apenas alguns dos que beberam de sua fonte. Suas composições anunciavam novos tempos para o Blues, lavando a lama das suas raízes, dilapidando-as,  além de oferecer um pouco da classe da Broadway e doses do requinte Hollywoodiano daqueles dias.  Basta ouvir a versão de Everyday I Have The Blues, presente no álbum The King Of Blues, para entender ao que me refiro. Seu Blues vibrante, recheado de malícia advém da parceria histórica entre o bluesman e suas Lucille’s, ou seja, suas guitarras. O tradicional nome de suas companheiras de seis cordas foi escolhido após B. B. King quase morrer por sua guitarra. Numa fria noite, ardia um tambor de querosene no meio do salão onde ele iria desfilar seus acordes e sua voz aveludada. Em dado momento, dois homens começaram a brigar pela cozinheira Lucille, caindo sobre o tambor e incendiando o lugar. B. B. King saiu às pressas do local, sem levar sua única guitarra, numa época onde conseguir outra seria um problema. Voltou para salvar seu instrumento de trabalho, quase morrendo junto com as duas vítimas fatais do evento. Desde este dia, batizaria todas as suas guitarras com o nome de Lucille.

B. B. King: Everyday I Have The Blues.

Podemos, então, após este evento, agradecer aos céus por nos permitir viver mais meio século sendo agraciados pelas composições deste gênio, que nos ofereceu o que de melhor tinha a música moderna. Se o poeta francês Jean Cocteau estiver realmente certo e o Blues for a única contribuição autêntica e importante, de inspiração popular à literatura deste século, então B. B. foi um de seus melhores  poetas, compondo versos em acordes de guitarra, fazendo das palavras desnecessárias e obsoletas na tradução das emoções humanas.

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