A Ghost Story (2017) || Crítica

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…‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!…”

– Nietzsche, Gaia Ciência.

A Ghost Story é um filme peculiar devido sua narrativa predominante imagética e a forma com que usa os recursos estéticos para reforçar sua proposta cinematográfica (porque não dizer filosófica nesse caso). Recursos estéticos esses, que se não fossem tão bem utilizados como são poderiam levianamente ser acusados de maneirismos e estetização gratuita. Mas, felizmente cada escolha do diretor e roteirista David Lowery (Amor Fora da Lei e Meu Amigo, O Dragão) em relação a estética, aspecto técnico e condução da trama contribuem para criar a atmosfera soturna, melancolia, romântica, grandiosa e, contraditoriamente, intimista que da vida ao filme.

O filme narra a história de C (Casey Affleck ) um músico e M (Rooney Mara) sua esposa, que vivem numa casa um tanto isolada no meio do Texas. Somos apresentados ao casal em cenas que mostram a rotina deles (dormindo juntos, dividindo o sofá e etc). Cenas essas que deixam claro o afeto mútuo entre eles. O que acaba sendo muito eficiente narrativamente,  pois assim rapidamente criamos empatia por aquele casal. Logo em seguida C morre em um acidente trágico de carro (isso não chega ser spoiler, porque isso é o mote do filme).

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Passado pouco tempo depois da sua morte C volta só que agora como um fantasma. Tudo é filmado com muita sutileza, sem cenas gratuitas (alguém lembra do acidente para lá de exagerado do Brad Pitt em Encontro Marcado), com uma bela fotografia que evoca o clima etéreo, com uma trilha sonora não intrusiva que reforça as angustias dos personagens e com poucos diálogos.

A partir daí então, nas cenas após a morte de C, o filme abusa de cenas longas que nos convidam a difícil tarefa de acompanhar M no seu processo de luto. Ao mesmo tempo que nos faz cúmplice de C, já que é a através da visão dele que passamos acompanhar o filme. Um bom exemplo dessa cenas demasiadamente longas, para padrão do cinema comercial é lógico, é aquela já famosa (citada em todas críticas sobre o filme) onde vemos M comer uma torta inteira quando é observada pelo fantasma do seu marido ao fundo. Essa escolha por planos mais longos nesse momento não são gratuitas, elas possuem uma função narrativa muito evidente e crucial dentro da ideia central do filme. Tais cenas servem para nos lembrar o peso do tempo, nos fazer lembrar quanto vale cada segundo, principalmente para alguém que acabou de perder uma pessoa muito querida. É como se nessa primeira parte do filme estivéssemos acompanhando as coisas no tempo dos vivos,  através da noção de tempo de M. É como se aqueles momentos que não tivessem fim.

Ao mesmo tempo acompanhamos C na sua frustração, impotência e solidão. O figurino escolhido para o fantasma de C tem um papel crucial para funcionamento dessa ligação emocional com o personagem ou falta dela dependendo da pessoa. C ao voltar a terra após sua morte ressurge trajando um simples lençol com furos nos olhos. O que já de cara nos leva a fazer uma conexão direta com lembranças da infância (desenhos animados, jogos e etc), com o cinema clássico (cinema mudo) e com o passado. Nada mais justo, já que o filme tem como uma de suas forças motrizes a sua relação com tempo e o apego as lembranças. Outro ponto interessante desse figurino retrô e minimalista é o fato de anular por completo a expressão do personagem, nos fazendo projetar naquela figura sem rosto todas as nossas emoções e sensações em relação aquela história. Nos fazendo se tornar literalmente no personagem.

Ainda em tempo é preciso ressaltar a atuação incrível da atriz Rooney Mara, assim como também a atuação Casey Afleck, cada qual dando vida (e morte, piadinha infame) aos seus personagens com muito talento. Se Mara cria uma mulher ao mesmo tempo forte e frágil em busca de liberdade e novas chances na vida. Afleck cria um personagem extremamente ligado às lembranças (boas e ruins), os sentimentos investidos no relacionamento e consequentemente a aquela casa.

O filme conta também com uma bela fotografia, Andrew Droz Palermo, que emula uma atmosfera que navega entre o mágico e o realista usando de tons frios, mas cheios de raios luz, dando um clima soturno que acentua ainda mais o sentimento de dor e perda vivido pelos personagens. Já nos enquadramentos, Palermo e o diretor Lowery, privilegiam o uso da profundidade de campo e planos conjuntos (apesar da razão de aspecto reduzida, voltarei a falar do assunto a seguir) para mostrar o quão distante estão os personagens mesmo ocupando o mesmo lugar. Os dois são também muito eficientes na forma que usam os movimentos de câmera e planos detalhes. Vide a bela cena onde M está deitada no chão escutando música e estica a mão vagarosamente ou a forma como a câmera que se move flutuando ao acompanhar C em diversos momentos. Ou ainda a cena onde C num surto de raiva e frustração atira coisa na parede e no chão da cozinha, em que diretor usa a câmera na mão para simular o tom de urgência e descontrole.

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Voltando a forma que filme trabalha o tempo é importante falar da montagem do filme. No começo temos um ritmo mais lento, mas em certo ponto a montagem se torna mais ágil e passa fazer uso de saltos cronológicos cada vez mais distantes e frequentes. Usando recursos que dão certo dinamismo e reforçam a noção de longa passagem de tempo. Vide a cena em que C observa M ir embora de casa, um dia após outro, consequentemente. Essa montagem “mais ágil” nessa segunda metade do longa cria um contraponto perfeito à aquelas cenas longas do começo, pois devido as essas cenas do começo sabemos, sentimos na pele, o peso do tempo. E quanto vale cada segundo dentro das regras daquele mundo. Então quando a montagem do filme nos faz passar por dias, meses, anos, décadas, podemos entender um pouco mais da angústia de C e sentir a dimensão da solidão dele.

Nesse momento a montagem, cheia de cortes abruptos e com longas elipses, nos deixa claro que agora estamos vendo o filme pela noção de tempo de C. No tempo dos fantasmas. Se nas cenas do começo quando estávamos no tempo M tudo tinha um ritmo lento e constante. Agora vemos o tempo saltar diante dos nossos olhos (às vezes décadas) sem sequer notarmos, ficamos tão expostos ao tempo e sensação desnorteamento quanto C. A montagem, que também foi feita pelo diretor David Lowery, tem uma função muito mais importante no filme do que apenas criar uma certa coerência para história. A montagem tem no longa um grande peso na criação daquela atmosfera e faz parte crucial da narrativa pois ela nos dá sensação de dilatação do tempo. Nos mostra o quão implacável é ação do tempo.

Ainda em relação as escolhas técnicas e estética usadas pelo diretor, para contar sua história, é importante ressaltar a opção pelo uso de uma razão de aspecto reduzida (provavelmente 4:3) com bordas arredondadas, lembrando projeções em 8mm. O que nos remete a vídeos caseiros, a lembranças de família e novamente ao passado. Essa escolha pela razão de aspecto menor tem também uma outra função, a de nos passar a ideia de que os protagonistas estão presos naquele espaço reduzido, como que confinados aquele lugar e impossibilitados de sair dali.

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Por fim temos a música, composta por Daniel Hart, que juntamente com o ótimo desenho de som (Michael L Barnett, Johnny Marshall) evidenciam a cada instante a angústia e sofrimento dos personagens ao mesmo tempo que evoca um tom grandioso e misterioso. Vale citar também as ótimas canções que são usadas no filme. Em especial “I Get Overwhelmed” que é usada diegeticamente em algumas das cenas mais bonitas do filme.

“Salvo, salvo, salvo”, bate com orgulho o coração da casa. “Longos anos”, suspira ele. “De novo me encontraram”. “Aqui”, murmura ela, “dormindo; no jardim lendo; sorrindo, rolando maçãs no sótão. Aqui deixamos o nosso tesouro”.

– Uma Casa Assombrada – Virginia Woolf (conto usado com inspiração para o longa)

No filme C não fica preso propriamente dito a aquelas paredes, ao local físico (como fica evidente em certo ponto do longa), mas sim a sua história com aquele lugar e tudo que ele viveu ali. C fica preso às lembranças ali plantas, preso às palavras que não foram ditas, preso a sua necessidade de terminar aquilo que foi interrompido, preso ao seu sentimento de culpa. Tudo isso se materializa na linda metáfora visual do bilhete escondido nas paredes da casa, que C não consegue alcançar. O bilhete torna-se para C tudo aquilo que ficou sem final, a representação física de todos os sentimos e afetos vividos que aquele lugar.

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A jornada de C e M nos faz questionar a nossa incapacidade de se comunicar e com isso traz atona a nossa eterna tentativa de corrigir o que erramos do passado. Eles não conseguiam se comunicar, como gostariam ou deveriam, quando partilhavam a vida juntos. E agora,depois de morto, C se tornou apenas um telespectador, vagando sem se fazer sentido, sem conseguir dizer a M tudo que ficou preso dentro dele. A verdade é que eles já estavam em mundos separados antes mesmo da morte de C, o que faz com que a morte no filme, seja só mais uma camada de distanciamento dentro da relação deles. Mas agora, depois de morto, para C tudo que importa é completar aquilo que ficou sem final e corrigir seus erros. Não importa mais se o tempo vai levar tudo a sua volta, C só quer saber as últimas palavras de M e completar sua história. Tal como cada um de nós presos ao nossos mundos particulares, tentando completar aquilo que nos falta, sem dar conta do que acontece na imensidão à nossa volta.

O filme mostra um olhar duro e poético sobre a necessidade de se deixar partir algo que nós caro. No filme C não está pronto para ceder, para se libertar das lembranças e daquilo tudo que eles viveram juntos. Ele é o nosso avatar em relação a nossa prisão formadas por traumas, afetos, culpas e passado.

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A Ghost Story enfim é um filme que discute nossa relação com o espaço, com a nossa história e com a forma com que lidamos com a culpa (o filme tem uma clara influência na ideia do Eterno Retorno, de Nietzsche). É um filme pretensioso que questiona nossa real significância em relação a imensidão que nós cerca (vide o grande diálogo existencialista na cena da festa).  Enfim, é uma história de fantasma desconstruída, uma reinvenção em cima de gênero clássico do cinema, que consegue ir além do lugar comum e levantar questionamentos muito complexos. É capaz de gerar diferentes formas de leitura e ainda emocionar aqueles que toparem investir seus sentimentos nessa história (que estiverem abertos a isso). Para mim o melhor filme do ano até agora (na verdade junto com Patterson, de Jim Jarmusch). Espero que assistam o filme! Até próxima!

Uma ideia sobre “A Ghost Story (2017) || Crítica

  1. Linda crítica, sempre me faz querer ver o filme de novo. O filme tem um clima bem pesado. Talvez pesado não seja a palavra certa, mas como você mesmo citou, a escolha das cores e afins me passou a sensação de angústia, o que me fez chorar milhares de vezes durante o filme. Enfim, uma bela crítica para um belo filme.

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