A Nova Onda da Soul Music Australiana

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Por:Marcelo Lopes Vieira

Austrália. Terra dos aborígenes, dos cangurus e do Crocodilo Dundee, aquele peculiar personagem do cinema que caçava crocodilos. Mas nem só destes elementos vive a cultura pop no continente-ilha (um dos modos como a Austrália é referenciada), afinal, o mundo da música, onde nossos holofotes estarão direcionados hoje, foi presenteado pela Austrália com nomes do quilate de AC/DC, Bee Gees, INXS, Olivia Newton-John, Nick Cave, Air Supply, Men At Work e Midnight Oil, só para citar os nomes mais famosos. Musicalmente, aquelas paragens possuem uma raiz cultural que remete a alguns milênios, engendrada por diversas tribos indígenas que, ao passar dos anos, foi misturada a influências ocidentais, muito em decorrência da colonização por parte dos ingleses. Culturalmente, a mão dos colonizadores foi forte, imprimindo muito da música europeia nas harmonias sonoras australianas, culminando hoje em uma cena musical rica, alavancada a partir da metade do século passado por estilos como rock (não podemos nos esquecer do Silverchair, Wolfmother, John Buttler Trio e do Australian Crawl), country music australiana e pop (além dos já citados, ainda são artistas pop nativos o duo Savage Garden e as cantora Natalie Umbriglia e Kylie Minoge).

Claro que este olhar pode soar um tanto restritivo, pois ainda temos proeminentes australianos em outras áreas musicais mais segmentadas (como a world music, música erudita e jazz), mas estes estilos destacados formam os pilares centrais da exportação musical do país, que agora nos oferece uma nova manufatura musical: a soul music. Incrivelmente, a riquíssima cena soul music americana não foi apresentada aos australianos pelas vias comuns  da época auge, ou seja, pelas ondas do rádio. Relatos “piadistas” podem indicar os motivos por detrás deste boicote: racismo. Um volume versando sobra a história do rádio australiano nos contaria que quando um DJ de uma rádio de Melbourne apresentou a canção River Deep Mountain High, de Ike and Tina Turner, uma das vozes mandantes da rádio teria obliterado a canção das programação, com a “espirituosa” justificativa de a música ser “muito barulhenta e muito negra”.

O corolário imediato desta imposição foi a gravação de covers dos sucessos da música negra americana por artistas locais, sendo adaptados aos moldes australianos. Desta primeira geração podemos listar Max Merritt and the Meteors, The Goop, Renée Geyer já na década de 1970, além de Marcia Hines e Jimmy Barnes. Com o aumento da velocidade da troca de informação no novo milênio, as novas gerações independem das rádios e da televisão para ter acesso aos clássicos originais, nos propiciando assistir o surgimento de uma nova onda da soul music australiana. Vamos abordar alguns dos mais interessantes nomes desta nova safra e que nos brindam produzindo ótimos álbuns.

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Paul Kelly e o time australiano formado para seu último álbum que exalta a soul music.

Vamos começar com um álbum que ganhou o mundo neste ano de 2015 (apesar de ter sido lançado em dezembro de 2014 na Austrália), engendrado por um dos mais tradicionais nomes da música pop australiana, Paul Kelly. Presents The Merri Soul Sessions é o vigésimo álbum do artista, trazendo muitas de suas faixas compostas pensando nas vozes da “nova geração” que iriam interpretá-las. Aliadas a muita sensibilidade e pouca densidade instrumental (já uma característica da prolífica carreira de Paul) estão nomes que podem servir de ponto de partida para nossa viagem pelos novos caminhos da soul music australiana.

Uma das canções mais interessantes do álbum é Keep Coming Back For More, com vozes a cargo de Clairy Browne e levada instrumental moderna, sendo, talvez, a canção com mais potencial comercial do álbum. Clairy é líder do grupo australiano Clairy Browne & The Bangin’ Rackettes, cuja canção Love Letter já foi tema publicitário da cerveja Heineken (confira o vídeo completo da propaganda logo abaixo). Este grupo feminino surgiu em meados de 2009 e desfila seu talento por estilos como soul, blues, doo-wop, ska e gospel com a mesma maestria, nos mostrando a vasta gama de influências que embasam sua boa música. Indicadíssimo é o álbum de estreia, intitulado Baby Caught The Buss, que abre com a já clássica Love Letter.

Seguindo o rastro da aula soul ministrada por Paul Kelly, podemos chegar até o duo fraternal Vika and Linda, que traz na bagagem anos de experiência como backing vocals dentro do cenário soul da Austrália, tendo iniciado a carreira como dupla em 1994. Se temos em mãos este indefectível álbum de Paul Kelly devemos agradecer a Vika Bull e sua interpretação de Sweet Guy (composição de Kelly) que o motivou para este projeto. Não deixe de conferir os álbuns Princess Tabu e Two Wings gravados pelas irmãs.

https://youtu.be/jypbzCXi-8g

O pedigree soul pode ser visto em Mahalia Barnes, filha de Jimmy Barnes, que à frente do grupo The Soul Mates nos oferece neste ano de 2015 um dos mais saborosos acepipes musicais do estilo, o álbum Ooh Yea! The Betty Davis Songbook, transbordando personalidade e flertando diversas vezes com o hard rock e o blues, tanto que já dividiu projeto com Joe Bonamassa, o atual ícone da guitarra mundial. Outro nome interessante da cena, que investe em uma mistura entre country, rock e soul é Dan Sultan, músico com descendência aborígene e que obteve relativo sucesso com a canção Your Love Is Like A Song, sendo um dos nomes convidados para a festa soul australiana que Paul Kelly promoveu em seu último álbum.

Numa pegada um pouco mais serena e jazzística temos o Hiatus Kaiyote, que se revela uma das bandas mais interessantes desta nova safra e devendo ser conferida sem demora. Exalando poesia musical por todas as suas harmonias, o álbum Tawk Tomahawk nos oferece uma viagem interessante dentro do soul/jazz.

Esta iniciação à Nova Onda da Soul Music Australiana não poderia deixar de mencionar, em seus momentos finais, nomes interessantíssimos como Bec Laughton, Kellie Knight and the Daze, Ms Murphy, Chelsea Wilson, Deep Street Soul e a modernidade musical temperada com muito soul de Chet Faker. Entretanto, este é apenas um primeiro apanhado superficial de uma cena extremamente rica, como toda a atual cena musical australiana. Muita atenção ao continente-ilha da ponta do planisfério, pois muita música de qualidade tem ressoado por aqueles lados.

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