Castello Branco – Sintoma || Crítica

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Quando, no começo de seu disco novo, Castello Branco canta: “fica mais leve o peso do seu coração” já deixa claro para ouvinte quais são suas intenções. “Sintoma” é um disco poético e sensível que navega pela MPB, folk, eletrônica e pop, embalado por uma ambientação que nos remete a um reencontro com a natureza, com o passado (lembranças da infância) e afetos muitas vezes esquecidos na correria do dia a dia. Em uma época onde o cinismo se tornou a regra, o álbum traz uma obra cheia de sentimento, com um discurso sobre a fé, amor e autodescoberta. O que pode soar fora de moda tendo em vista a mentalidade vigente hoje em dia, mas acaba sendo, por isso mesmo, deveras necessário e significativo.

Logo na primeira música Castello Branco já nos apresenta aos dedilhados de violão que vão nos fazer companhia durante os próximos minutos. Em seguida se junta aos acordes de violão um balanço de MPB delicioso, influências de músicas regionais, guitarras, sintetizadores, flautas e um belíssimo duo vocal. A partir daí o disco nos segura pela mão e vai nos levando calmamente para o universo proposto pelo artista, navegando entre o nostálgico e o moderno (o interior e a cidade grande) com um clima agridoce, amigável e quase espiritual.

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Grande parte do sucesso dessa empreitada está no instrumental extremamente evocativo e na sua complexidade musical incomum que se encaixa de forma muito feliz com ritmos tão característicos das músicas regionais. Chega ser curioso como mesmo embebido de um ar pop, contemporâneo, com suas construções melódicas criativas e seu forte flerte com a música eletrônica tudo ainda soe tão familiar e nos faça navegar por memórias agradáveis (Por exemplo: O solo de flauta da música “Coragem” me faz lembrar das procissões que ia quando criança na companhia da minha avó e tia).

As letras, cantadas como quem conta uma anedota a um amigo (cheio de diminutivos e linguagem coloquial), são também outro ponto importante na criação desse clima de cumplicidade com o ouvinte. A composições evocam questões existenciais: “Já desci por todo esse corpo / E não vi quem me botou aqui / Mas se conhecer de verdade / Coragem, que coragem”, “Hão de ter quando tão bem notarem / Que não tem mais esse trem de homem”; Um amor verdadeiro sem desejo de posse: “O meu coração / É teu / Agora / Não faço questão / De ter-te / Em troca”; Um amor quase espiritual e de comunhão com natureza: “Esse amor e manto salvador / Neste canto e manto salvador / Vem de olhar o próximo”, “Avistei o sol subindo o vale / E corri danado em teu carinho / Num peito que abre, tudo cabe/ Natureza, ginga do infinito”..

Lógico que toda forma de arte depende muito das experiências pessoais para emocionar e agradar de fato o ouvinte. Sendo assim, alguns podem não estar predisposto ao estilo ou ao discurso, proposto pelo artista, mas mesmo assim recomendo dar uma chance ao disco. Ele realmente merece uma chance longe dos preconceitos. Como nós mesmo merecemos uma chance de ser um pouco menos cínicos e ter um pouco mais fé (no ser humano). Um álbum para deixar de fato o coração mais leve.

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