Creedence Clearwater Revival e a Trilogia Musical de 1969

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A década de 60 foi mágica para a indústria fonográfica. A paixão pelos discos de vinil e a empolgação presente em cada single lançado estavam em sua maior era e o dinheiro corria como água neste mercado, possibilitando os mais ambiciosos projetos. No fim da década, as produções megalomaníacas eram comuns e cada banda queria ousar mais do que a outra. Desta forma, além de formatar todo o modelo que a indústria fonográfica seguiria nas próximas três décadas, víamos uma enxurrada de operas-rock, álbuns duplos ou até mesmo triplos e gastos exorbitantes em horas de estúdio. Esse clima parecia favorecer os músicos que criavam uma obra-prima atrás da outra, com canções inovadoras, relevantes e que não economizavam na mistura de sonoridades e esbanjavam ousadia ao pisar em terrenos não dominados pelo rock n’ roll propriamente dito. Neste cenário, nasce uma banda que, apesar de investir em uma mistura de sonoridades em evidência no fim daquela década, fugia dos projetos musicais faraônicos e apostava na clássica música orgânica e direta. Estamos falando do Creedence Clearwater Revival, que em 1971 foi eleita pelo New Musical Express como a melhor banda do mundo, após vender milhares de singles e conseguir marcar a história do rock com apenas cinco anos de existência.

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Creedence Clearwater Revival: Uma das maiores bandas da história do rock

Creedence Clearwater Revival: Proud Mary

Em seus primeiros anos, ainda sem adotar o nome que marcaria a história da música, a banda investia em uma sonoridade mais psicodélica, se inspirando na escola inglesa. O quarteto formado John Fogerty (guitarra e vocais), Tom Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria), já tocava junto desde 1959 e, em 1967, quando John e Stu cumpriram o serviço militar, inspirados no nome de um amigo e numa marca de cerveja, re-batizaram a banda como Creedence Clearwater Revival, investido em uma sonoridade simples, funcional, calcada no rock primal da década de 50, temperada pela tradição musical sulista (apesar de serem californianos) e inspirada no folk que tanto gerava saudade nos fãs de Bob Dylan e The Band. Lançaram o primeiro álbum em 1968, autointitulado, e seguiram na contramão do mercado da época com suas músicas básicas, recheadas de alma e deliciosamente irresistíveis. Foram instantaneamente rotulados como roots rock e se tornaram a melhor sucedida banda de singles do rock americano.

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Creedence Clearwater Revival: Green River

Mas a maior proeza do grupo, à época, liderado pelo genial John Fogerty foi realizada em 1969. Qualquer americano que ligasse o rádio depois de novembro daquele ano iria, sem dúvida, ouvir “Proud Mary” ou “Fortunate Son” a cargo do Creedence Clearwater Revival. Estes dois singles foram sucessos acachapantes e apresentaram a banda aos outros mercados musicais do exterior. O single da primeira canção venderia mais de um milhão de cópias em todo o mundo, como uma canção pop simplesmente adorável, enquanto o segundo single apresentava uma dose extra de politização em sua letra que protestava contra a convocação militar. Naquele ano, eles entrariam na história do rock por lançar três álbuns de magistral sucesso e qualidade. O primeiro álbum desta trilogia de 1969 foi lançado em janeiro daquele ano. Bayou Country apresenta uma banda descobrindo sua sonoridade em um conjunto de músicas sem defeitos, lideradas pela já citada Proud Mary, mas que ainda traz Born on the Bayou, um blues disfarçado com vocal visceral de John Fogerty, numa das melhores canções da banda. Pode-se ainda destacar Keep on Chooglin’, Graveyard Train e o cover com espirito roqueiro para Good Golly Miss Molly.

Creedence Clearwater Revival: Fortunate Son

Em agosto de 1969 foi a vez de Green River ganhar o mundo. Das nove canções, pelo menos sete se tornaram pérolas do rock, com uma roupagem ainda mais simples, honesta e quase como um manifesto contra os solos intermináveis de guitarra e os cansativos excessos musicais que inundavam os discos de rock daqueles tempos. O gosto forte do blues rock em canções como Commotion, com suaves notas de música sulista e base roqueira robusta, ajudaram, naquele momento, a batizar o som da banda como swamp rock (algo como rock do pântano). Contrários ao som que as bandas da cena de onde eram oriundos desenvolviam, eles declinavam daquele rock “viajandão” e afetado. Tombstone Shadow faz o blues voltar a mascar capim na beira de uma estrada de terra, e nossos ouvidos são capazes de trazer da audição ao nosso olfato, notas adocicadas de capim fresco, envolvidas em dor de amor ao nos deliciarmos com Green River, Wrote A Song For Everyone, Bad Moon Rising, Lodi e o cover de The Night Time Is the Right Time. Sem dúvidas, a mais brilhante das peças que formam a trilogia de 1969 desta fenomenal banda. O próximo, e último elemento do tripé musical, pode não ser o melhor em composições, mas é o álbum cuja arte gráfica representa melhor o que o Creedence produzia em termos musicais.

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Creedence Clearwater Revival: Bayou County

No dia de finados de 1969, a banda apresenta Willy and the Poor Boys, que traz canções certeiras envoltas em um rock n’ roll contagiante, incendiário e simples. Uma coleção de canções mais curtas que carregavam mais crítica social (presente até na arte gráfica) que os outros lançamentos da banda, mas ainda traziam canções com resquícios dos dois álbuns anteriores (como Feelin’ Blue que podia estar em Green River). Mas o nível não caiu neste disco, onde temos o fenomenal pop rancheiro Down on the Corner, que esta aqui disfarçado de um pop rock com sotaque interiorano. It Came Out of the Sky é um rock n’ roll daqueles de rachar o assoalho, enquanto Cotton Fields, de Leadbelly, é o cover irrepreensível do álbum. O grande sucesso fica com Fortunate Son, um protesto antimilitar visceral, da melhor escola que o rock básico pode ensinar. Os três álbuns somaram vendas que equivaliam a sete vezes platina dupla nos E.U.A., o que era um feito hercúleo para uma banda que terminava seu segundo ano de lançamentos oficiais já com quatro álbuns e status de multiplatinados. Ainda veríamos mais três álbuns nos próximos anos e sucessos atemporais como Hey Tonight, Who’ll Stop The Rain e Have You Ever Seen The Rain ainda seriam lançados, mas a essência musical do Creedence Clearwater Revival está aglutinada nesta trilogia musical histórica.

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Creedence Clearwater Revival: Willy and the Poor Boys

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