ESQUERITA: O Inspirador Desconhecido de Little Richard

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Pense num pianista extravagante, retirando acordes como trovoadas, compondo rock n’ roll puro e simples, utilizando óculos escuros esportes ultrajantes, um topete exagerado (alardeado por algumas pessoas próximas que ele se valia de duas perucas), de fino bigode e voz lascivamente provocante. Pensou? Se foi levado a Little Richard pelo seu pensamento saiba que a descrição também lhe cabe, mas estou falando de Esquerita, seu “mestre”.

Quando Little Richard surgiu para o mundo da música foi semelhante a um furacão que passara inadvertidamente pelo mundo da música. Ele literalmente devastou o rythm & blues no fim dos anos 50 com seu mais emblemático álbum, Here’s Little Richard, de 1958. Dentre os hinos do rock ali presentes estavam Tutti Frutti, Lucille e Long Tall Sally que se tornaram parte da espinha dorsal do rock n’roll. Fora descoberto no interior dos Estados Unidos por um caça-talentos de uma grande gravadora em busca de um novo Ray Charles. Quando foi revelado para o mercado fonográfico já não era um iniciante no mundo cruel do show business. Saiu de casa aos 15 anos e interpretava Caledonia, de Louis Jordan, em troca de centavos, sendo este artista uma grande influência em sua carreira. Little Richard não se tornou o rei do rock por ser negro e declaradamente homossexual, pois tinha poderio vocal equivalente, quiçá melhor, que Elvis Presley, tendo este segundo vencido a disputa pelo coroa em decorrência de seu visual.

Little Richard em uma explosiva apresentação da canção Long Tall Sally.

As apresentações de Little Richard eram energéticas, libidinosas e carregadas de frenesi. Sua maneira de sexual de cantar e tocar se tornou famosa e sua versão de Tutti Frutti espalhou seu rosto nos quatro cantos do planeta, personificando o sentimento de liberdade desejado pela juventude, em especial, dos jovens negros. De onde vinha aquela forma única de se apresentar? Alguns dizem que o divisor de águas na carreira de Little Richard foi um encontro numa estação de ônibus na sua cidade natal. Segundo ele, neste ponto teria encontrado “Excreta”, músico local de nome Skew, tocando música gospel em um piano. Após uma conversa, se dirigiram para a casa de Richard, onde, impressionado com a técnica do pianista, pediu a ele que lhe ensinasse aquele modo único de tocar piano. Em sua biografia, Richard afirmara que Skew era o maior pianista que ele conhecera, sendo o seu maior professor na música.

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Quem seria Esquerita? Primeiramente, é importante mencionar que este nome lhe foi dado bem depois do seu encontro com o iniciante Little Richard. Seu batismo artístico se deu quando fora descoberto por Paul Peck, membro da banda de apoio de Gene Vincent, os Bluecaps. A mudança do nome Skew para Esquerita foi uma sugestão da própria gravadora que aceitara investir no artista. Nesta época, Little Richard já havia se tornado pastor e a Capitol Records buscava pelo seu furacão do rock n’ roll, que assemelhasse ao astro convertido em seus primórdios. Podemos calcular a figura de Esquerita no ponto médio entre Little Richard e o mestre Screaming Jay Hawkins e suas influências são originárias de vizinhas que cantavam óperas e os grupos gospel em que participava na adolescência. Inclusive, no ato do encontro com Little Richard, Esquerita, ainda como Skew, se apresentava ao lado de uma cantora gospel. A sonoridade, o estilo e a energia apresentadas por Little Richard podem ser ouvidas no som de Esquerita, que não levou o devido crédito por muitos anos pela falta de gravações da sua obra. A Capitol abandou o projeto quando seus singles não emplacaram e o álbum foi arquivado. Nas seções de gravação estavam alguns membros dos Bluecaps e seu único single a atingir algum reconhecimento mínimo foi para a canção Green Door.

Esquerita: Sarah Lee

Mesmo sem o apoio das gravadoras, lutou bravamente durante os anos 60 em busca do devido reconhecimento de sua obra, mas sempre era visto como uma cópia de Little Richard, quando, na verdade, ocorria por uma peça do destino, exatamente o contrário. Mesmo alguns afirmando não ser possível estabelecer quem influenciara quem, Richard admitiu que Esquerita foi seu mestre antes da fama. Seus agudos marcantes rasgam o tímpano para imprimir revoluções cerebrais em prol do sentimento de liberdade. É inegável que Little Richard tinha as mais diversas influências, mas com Esquerita elas beiravam a cópia, mesmo visualmente. O mercado fonográfico não foi tão aberto o quanto Skew pensava ao abandonar a música gospel em busca de profissionalização e ele desapareceu nos anos 70, após fracassar na década anterior. Até ensaiou um retorno na década de 80, mas foi mais uma vítima da AIDS em 1986, ainda sem mostrar ao mundo todo o seu talento. Hoje em dia é possível encontrar uma boa variedade de álbuns com suas músicas, algumas preciosidades em vinil, como o ótimo Vintage Voola. Se tiver a oportunidade, não deixe de conferir suas gravações, pois representam uma parte da história obscura do rock n’ roll.

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