FOO FIGHTERS: Embaixadores do Rock como Espetáculo

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O título deste texto fará nascer brotoejas na pele dos mais puristas, afinal, para estes, associar a banda capitaneada por Dave Ghrol aos itens mais dourados do rock n’ roll é um sacrilégio de proporções colossais. Pois bem, meus caros, encarem a verdade, pois ela também me foi de aceite deveras relutante, mas após assistir a transmissão do espetaculoso show que esta banda executou no Estádio do Maracanã (uma performance quase atlética), não há dúvidas, eles são arautos para a nova geração dos gigantescos shows de rock de uma época distante. Pelo menos é o que indicam suas recentes apresentações. A banda, que ficou quase dois anos sem efetuar longas turnês, parece promover uma volta do show de rock n’ roll como um espetáculo. Os dois últimos trabalhos do Foo Fighters já distanciava a banda do que é comumente rotulado como post-grunge, ou simplesmente rock alternativo. Em especial, o megalomaníaco Sonic Highways, de 2014, vem com suas bases cravadas do rock clássico, com pitadas de heavy rock (ou você não reconheceu os tons de Holy Diver, do mestre Dio, na faixa de abertura do álbum?). Grande parte deste tempero se deve à formação da banda, com três guitarras, baixo, bateria e teclados, no melhor estilo clásico. Minha leitura do momento me diz que esta metamorfose vem desde o álbum anterior, Wasting Light, mas, neste mais recente lançamento, temos um elemento muito comum aos anos dourados do rock: os projetos grandiosos, quase megalomaníacos.

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Capa de Sonic Highways

 

Sonic Highways, como projeto que engloba documentário e álbum, gastou dois anos da biografia da banda. Nas palavras de Dave Ghrol, “foi um ano de planejamento do projeto como um todo e depois mais um ano gravando o álbum”. A diferença essencial dos megalomaníacos álbuns de décadas passadas é que para o Foo Fighters o investimento saiu do próprio bolso, incluindo a receita completa de dois shows do México, em 2013. O formato final apresentado remete às produções setentistas, com oito canções (seriam quatro faixas de cada lado do vinil?), mudanças súbitas de arranjos, longos solos e frases instrumentais, além das construções harmônicas mais limpas. Entretanto, o álbum é apenas um detalhe dentro do revival que o Foo Fighters se propõem nesta fase de sua existência. Ao vivo, eles estão investindo em novos arranjos para suas já conhecidas canções, com longas jams, solos e inserções instrumentais, que trazem aquele clima de caos controlado a um bom show de rock n’ roll. Nitidamente a plateia imediatista dos nossos dias não parece preparada para tais ingredientes saborosos e, por duas vezes no show do Rio de Janeiro, Ghrol veio ao microfone agradecer aos aplausos, mas informar que ainda faltava terminar a canção.

 

Janeiro de 2015, Rio de Janeiro: Foo Fighters e seu espetáculo roqueiro.

 

Aos ainda incrédulos que esta banda é uma das que melhor definem um espetáculo de rock hoje, basta se apegar a fatos irrefutáveis. Longe do minimalismo apregoado como a verdeira arte absoluta da música atual, o Foo Fighters nos traz um palco gigantesco, com rampas e acessos pro dentre o público (tradicional às grandes bandas do estilo), iluminação como parte do espetáculo, novos arranjos instrumentais “improvisados”, claramente inspirados pelo rock clássico, permeando mesmo as canções mais diretas e até com aromas alternativos mais infantis. Para não deixar dúvidas de seus fins, os meios de passar a mensagem para esta geração de ouvintes dotados da moderna autossuficiência cultural enganadora, foi através de clássicos de bandas ícones como Rush, Beatles (no “solo” de guitarra de Dave Ghrol), Deep Purple. Queen e Kiss, encerrados com um conselho do professor Ghrol: “estas são as canções que ouvíamos quando adolescentes”. Um momento quase didático do show. Estes argumentos só corroboram com a impressão de que eles estão se tornando embaixadores de um espírito quase morto na cena rock n’ roll (não somente como estilo musical, mas como objeto cultural em todas as suas frentes) frente às novas audiências.

Não poderia deixar de mencionar como Dave impressiona na sua posição de frontman, não obviamente por sua inflexão vocal (que não é das melhores, a menos de seus rugidos empolgantes em algumas canções), mas por suas disposição em cena. Claro que a formação com duas outras guitarras além da sua, lhe deu mais liberdade e mobilidade no palco oferecendo mais condições para sua ótima comunicação com o público. Quem lembra de sua tímida postura atrás das caixas, bumbos e pratos em épocas de Nirvana, o tem como exemplo de que o passar do tempo é benéfico para alguns seres humanos.  O baterista Taylor Hawkins está em sua melhor forma, demonstrando virtuose pertinente ao arranjo de cada música, esbanjado talento em sua bateria durante todo o show, sendo o único a não errar as matemáticas mudanças de andamento do cover de Tom Sawyer, do Rush. Por fim, se achas que Ghrol não possui cabedal suficiente para ser um embaixador do rock para as novas gerações, saiba que, no alto de seus 45 anos, ele transita por grande parte da cena que o orbita o rock, hoje em dia. Além de ter sido baterista do Nirvana, já dividiu palco com Paul McCartney, David Bowie e Jimmy Page. Além disso, foi o mentor intelectual do projeto Probot, que reuniu nomes icônicos da cena heavy metal, do quilate de Lemmy Kilmister, Max Cavalera, Cronos e King Diamond, tocou bateria com o Queens of the Stone Age e participou, ao lado de John Paul Jones (baixista do Led Zeppelin), do excelente grupo Them Crocked Vultures. Não obstante, revitalizou um clássico estúdio, fazendo do processo um documentário, quase uma vídeo-aula de parte importante da história do rock, além de ser conhecido como o músico mais “gente fina” do rock atualmente. Por esse e outros motivos, posso afirmar que poucas vezes uma trajetória no cenário roqueiro foi tão eficientemente didática quanto a do embaixador Dave Ghrol.

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