Jim Jarmusch – imigrantes, desajustados e cultura pop

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Jim Jarmusch é um dos pais do novo cinema independente norte americano. Ao lado dos seus irmãos cineastas, até mais populares Quentin Tarantino e os Irmãos Coen, ele foi um dos responsáveis pelo renascimento do cinema independente americano no fim dos anos 80 e começo de 90.

Jarmusch estudou cinema na Universidade de Nova York, mas abandonou estudos quando lhe surgiu a oportunidade de fazer seu primeiro filme “Permanent Vacation”. Embora, “Permanent Vacation” tenha chamado atenção foi com “Stranger Than Paradise” que ele realmente mostrou a que veio, conquistando elogios da crítica e do publico. “Stranger than Paradise” é um filme simples e criativo, nele Jarmusch já mostrava alguns dos temas que se tornariam recorrentes na cinematografia: personagens desajustados (muitas vezes imigrantes), conflitos culturais, direção elegante e contida, o uso do “fade out” como recurso de edição, uma narrativa calcada nos diálogos e na cultura pop (principalmente musical).

Segui aqui um pequeno olhar sobre sua obra (o seu estilo, recursos e temas):

Estranhos no paraíso (Stranger Than Paradise) [1982]

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O longa conta a história de 3 amigos imigrantes da Hungria que vivem a margem da sociedade. Nesse filme os temas e estilo de Jarmusch já estão presentes: na trilha sonora underground embutida organicamente na narrativa, no fato de dois dos personagens viverem de trambiques e apostas, nas coincidências e desencontros que afetam no destino dos personagens, na trama sobre choque cultural e etc. “Stranger Than Paradise” é um belo filme que mostra de forma bem particular e naturalista a vida dos imigrantes em relação seu novo país (no caso os E.U.A). Sem julgamentos ou moralismo. Um filme sobre pessoas comuns, tédio, sonhos, amizade…

http://youtu.be/ToCSOp7FGT0

Down by Law (1986)

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“Down by Law” talvez seja o filme mais famoso do diretor. Aura de cult do filme já está implícita no longa deste a escalação do elenco que tem: John Lurie (como um cafetão), o músico Tom Waits (como um DJ desempregado) e Roberto Benigni (como um excêntrico e otimista imigrante italiano). A história do filme gira em torno de três personagens de tipos bem diferentes que acabam se encontrando quando vão presos. Nesse ambiente inóspito eles criam um vinculo de amizade (pelo menos aprendem a se tolerar) e formam uma parceria para que possam fugir dali. Novamente aqui temos alguns dos temas recorrentes do cineasta: um imigrante (Benigni), personagens desajustados e coincidências que mudam drasticamente o destino dos personagens.

O filme é elegantemente fotografado em preto e branco, divertido (com seu humor natural), um texto bem amarrado e criativo. Enfim, tudo isso justifica o culto em relação ao filme.

Trêm Mistério (Mystery Train) [1989]

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“Trem Mistério” é um filme de estrutura episódica que conta três histórias que acontecem paralelamente durante um dia em Memphis. Essas histórias tem em incomum possuir como personagens centrais imigrantes, um hotel (onde todos os personagens se hospedam) e Elvis Presley (afinal, história se desenrola em Memphis, a cidade do rei). Esse filme fecha trilogia iniciada em “Stranger Than Paradise” e “Down by Law”. E assim como nos anteriores temos personagens vivendo a margem da sociedade, imigrantes, o choque cultural e o destino moldando a vida dessas pessoas.

O fato do filme ser episódico enfraquece o filme ao meu ver. Pois, muito embora as narrativas paralelas sejam legais, a primeira história do casal de jovens japoneses, que mergulham na cultura América ao ponto de perderem a própria identidade, é bem mais interessante que as outras histórias. E por mais que ultima história seja divertida e tenha servido de base para quase todo cinema independente americano posterior, a sensação que fica é que se tivéssemos seguido somente o casal de japoneses até o final seria muito mais vantajoso.

Uma noite sobre a terra (Night on Earth) [1991]

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O filme acompanha várias histórias que se desenrolam dentro Táxis em diferentes lugares do planeta (Nova York, Paris, Home e etc) durante uma noite. O longa tem histórias brilhantes e emocionantes, como a do palhaço e do jovem negro do Brooklin; e outras não tão interessantes como a primeira (que de bacana só tem Winona Ryder linda, jovem e descolada); Mas o saldo final é bem positivo.

http://youtu.be/P7wa9kSI5Ew

Dead Man (1995)

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“Dead Man” talvez seja a maior produção de Jarmusch. Tem cenários, figurinos e reconstituição de época invejável. O filme na verdade é anti-western que traduz de forma única a natureza do povo indígena.

Enfim, o resultado é um longa incomum, anti-climático e muito bem realizado.. O filme tem Johnny Depp na sua melhor fase, um roteiro apoiado numa de comédia de erros (onde as coincidências vão construindo e guiando os personagens), uma trilha sonora foda do mestre Neil Young, personagens presos entre várias culturas (o índio que gosta de ser chamado de “Ninguém”, é uma clara brincadeira sobre o choque cultural vivido pelo personagem), o vilão vivido pelo Iggy Pop e etc. Cinema independente em choque com mainstream.

Ghost Dog: The Way of the Samurai (1999)

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Nesse que é um dos seus melhores filmes Jarmusch, temos um assassino da mafia, um jovem negro da periferia que segue as tradições e o código de honra dos samurai do Japão Feudal. Novamente temos aqui, o choque cultural que fica evidente tanto no ambiente em que vive os personagens, quanto na trilha sonora (RZA) e nas referencias a hip hop nos diálogos.

Os personagens são interessantes e complexos, a trama apesar de simples é de uma peculiaridade e inteligencia impar, os diálogos são super inspirados e as situações ótimas. Enfim, um grande filme que caminha de forma sutil e inteligente, sabendo criar a atmosfera correta e a tensão para cenas de violência e ação. Mas, sem nunca deixar de espiar para as pequenas relações e o lado humano dos personagens. Jarmusch, não tem pressa em contar a sua história e se mantem firme ao seu estilo de direção (fade out está aqui de novo como principal recurso de edição e dando tom contemplativo a narrativa). O filme também intercala de forma orgânica, como uma especie de pontuação de capítulos, textos filosóficos sobre a cultura e estilo de vida dos samurais. Grande filme que clama por um estilo de vida mais honroso, um olhar nostálgico e apaixonado pelas tradições do passado.

Café e cigarros (Coffee and Cigarettes) [2003]

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Esse filme é uma Reunião de esquetes envolvendo personagens que se encontram para tomar café e fumar. O longa tem um texto sutil, divertido e que brinca com a persona dos atores e músicos envolvidos. O filme reuni atores e músicos como: Roberto Benigni, Steven Wright, Steve Buscemi, Tom Waits, Iggy Pop, Jack e Meg White, RZA, Bill Murray e etc. Muito deles interpretando a si mesmo nessa bela coletânea de histórias e situações inusitadas, engraçadas ou tocantes.

http://youtu.be/P_7uQsP2TBk

Flores Partidas (Broken Flowers) [2005]

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Esse é o meu filme favorito de Jim Jarmusch. O longa tem como protagonista Bill Murray (Rushmore, Encontros e desencontros, Feitiço do tempo), que é um dos melhores e mais carismáticos atores do cinema americano, em uma das atuações mais brilhantes, emocionais, engraçadas e verdadeiras do cinema. A direção de Jarmusch, sempre focada nos pequenos detalhes e natureza de seus personagens, cria um filme agridoce. Ao mesmo tempo melancólico e engraçado, ancorado em piadas sutis e um texto magistral.

O filme conta a história de Don um ex-mulherengo que sai numa jornada para reencontrar as suas ex-mulheres e descobrir se tem ou não filho. O longa é uma experiência unica de reencontro com o passado e um estudo sem precedentes sobre a solidão, duvidas e erros cometidos. O resultado é um genuíno filme do Jarmusch (fade out na edição, incluindo aqui “fade branco” nas cenas de sonho, personagens desajustados e perdidos, situações inusitadas mas sem soar forçadas e etc). Um dos melhores filmes do cineasta e um dos melhores que já vi! Um dos finais mais belos e sutis do cinema de cortar o coração.

Enfim se você ainda não conhece o cinema de Jarmusch chegou a hora.

obs: Fica faltando aí em cima os dois últimos do cineasta que ainda não vi: “Os limites do Controle (2009)” e “Only Lovers Left Alive (2013)”. Mas quando tiver oportunidade de assistir atualizo a postagem.

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