Resenha: Ferréz – Deus Foi Almoçar

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Por:Marcelo Lopes Vieira

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Se você já está familiarizado com a literatura socialmente engajada à periferia das grandes cidades orquestrada por Ferréz, e o enquadra em um estereótipo de arauto dos menos favorecidos, esqueça! O próprio autor, ao vender seu livro como um anúncio na contracapa, nos adverte desta mudança de ambientação na sua obra. Ao nos dizer  “não vendo para colecionadores que não entendem que o tempo pode causar danos a este material”, fica implícito o caráter independente da linearidade temporal contido nas páginas, levando a nós, prisioneiros irrecuperáveis do fluxo temporal, a dançar entre deduções do “quando” se passa a obra. Passado? Presente? Futuro? Pouco importa. Ingredientes dos três tempos se entrelaçam, como se acontecendo ao mesmo tempo, sendo apenas a nossa absorção da narrativa restrita ao passar contínuo do passado ao futuro. Este desprezo temporal é supervalorizado na rapidez dos capítulos e a cadência musical de suas frases que compõem pequenos parágrafos, dando uma fluidez perigosa para a real absorção da mensagem presente no texto. A transição entre alguns capítulos nos remete a cortes muito comuns aos nossos sonhos. Em verdade, Ferréz desenvolve a história de Calixto por excertos de sua vida, sem se preocupar com a linearidade e sim com o turbilhão de emoções que cercam o personagem de meia idade, que perdeu a esposa e a filha para os erros rotineiros, que divaga em aventuras sexuais frustradas e cujo círculo de contatos pessoais se resume a troca de olhares com uma vizinha, lembranças de Melinda, telefonemas esparsos com seu único amigo Lourival (que tem muito do autor em sua construção) e formalidades com Hamilton, seu parceiro de trabalho em um arquivo morto de uma empresa.

O mais interessante é a forma quase metafísica, como o desenrolar de um sonho, que Ferréz consegue criar ao nos apresentar estes fragmentos da vida solitária e reclusa de Calixto, como se este espaço-tempo se situasse num período onde Deus resolveu sair para almoçar e tudo ficou fora de controle, inclusive ambientes, linearidade temporal, a solidariedade, apercepção de nós mesmos e as nuances da vida particular de cada indivíduo. Como se preso a um caleidoscópio caótico de sua história durante esta saidinha do criador, Calixto é apresentado como um homem abandonado que nem pode dizer que Deus está ao seu lado. Usufruindo apenas da companhia de uma televisão ele vê seus dias passarem da padaria à casa empoeirada, tendo visões de sua pequena filha correndo pela casa vazia, enquanto mantém uma colher no bolso, cujo singelo significado nos é apresentado nos últimos parágrafos do livro, onde, segundo o próprio autor registra na contracapa, faltam alguns pensamentos e um pequeno sentimento no último capítuloDefinitivamente, nem tudo está explicito e tão pouco a leitura deste relativamente pequeno volume, concebido por Ferréz ao longo de oito anos, é fácil e aos amantes dos best sellers, esta obra, “quase um clássico” (como é vendido na contracapa), é pouco indicada. A maneira como as vicissitudes de Calixto são carregadas de nuances terrivelmente comuns, dando forma a uma odisseia psicológica de solidão e abandono, que é capaz de nos impactar de modo acachapante, imprime no leitor todas as amargas sensações tão latentes no personagem principal. Esta habilidade é o que torna indiscutível a evolução e o amadurecimento literário do autor que investe em uma ambientação fora de sua zona de conforto. Com estas ordinárias vicissitudes, tão inerentes a nossa vida, Ferréz leva alguns de seus leitores situados distantes da realidade descrita em suas obras precedentes a também questionar, frente às mudanças drásticas da vida atual, se Deus, realmente, não foi almoçar?

 

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