The Doors: As portas da percepção se fecham para o Woodstock

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Woodstock. Um marco na história da música moderna. O mais famoso festival do rock, que reuniu uma porcentagem considerável das mais importantes bandas de sua época, tinha como principal propósito inicial não a paz e o amor, como fora romantizado. O objetivo dos promotores era arrecadar dinheiro para construir um estúdio rentável. Sim meus caros, a filosofia que envolveu toda a mística de Woodstock veio quase como um acidente do destino.  Mesmo assim, o que a história nos conta é a forma como este festival se tornou um símbolo máximo da segunda geração do rock, uma referência de música, postura social e filosofia de uma juventude que ansiava por uma ruptura com a geração anterior. Todavia, alguns grandes nomes desta segunda geração roqueira não estavam incluídos na lista dos shows lendários e, apesar de o enumerado conter nomes de peso como Beatles, Bob Dylan, The Byrds, Joni Mitchell e Led Zeppelin, a ausência mais sentida é da banda The Doors, pois podemos inferir que eles foram o nome do rock americano em maior evidência na segunda metade da década de 60. Entre outras palavras, qual seria a razão do quarteto formado por Morrison, Manzarek, Krieger e Densmore não estarem reunidos entre 15 e 17 de agosto de 1969, junto a uma multidão de jovens e uma constelação roqueira no maior festival de rock de todos os tempos?

A versão oficial nos conta da recusa da banda em participar do Woodstock por acharem que este seria apenas mais uma imitação de qualidade duvidosa do Monterey Pop Festival. Outra possibilidade seria a insegurança de Jim Morrison em se apresentar para grandes plateias e este, ao meu ver, seria apenas uma forma mais adocicada de encarar uma verdade dolorosa: Morrison viva uma ressaca moral incurável e seu Rei Lagarto havia sido deposto do trono do rock n’ roll. Apesar de John Densmore aparecer no show antológico de Joe Cocker, a verdade é que a banda The Doors não subiu aos palcos de Woodstock por causa de seu maior símbolo: Jim Morrison. Trajando sua indefectível farda em jaqueta e calça de couro, ele encarnara o Rei Lagarto e se tornou quase um anti-herói em um romance, como um Hamlet regado a álcool e drogas pesadas e que compunha a própria trilha sonora. Numa época de ruptura e de misticismo alguns de seus admiradores o encaravam como um xamã encarnado, que segundo algumas teorias, ele teria forjado sua morte, em outras teria se tornado um agente da CIA, mas, que em verdade, ele foi a mola propulsora da banda e também seu tiro de misericórdia.

Grandes mentes da humanidade se debruçaram sobre o conceito subjetivo de percepção. Para Willian Blake, “se as portas da percepção estivessem limpas, tudo pareceria ao homem como realmente é: infinito”. Estas portas da percepção são as mesmas que batizam o The Doors, inspiradas pelo livro de Aldous Huxley, que Jim Morrison estava lendo quando se encontrou com Manzarek e o embrião da banda ganhou vida. Neste livro, intitulado As Portas da Percepção, Huxley descreve suas experiências com mescalina no intuito de diminuir a filtragem da realidade feita pelo cérebro, ou seja, seriam drogas ajudando o homem a abrir suas portas da percepção. Na mente poética de Jim, que buscava uma oposição às normas e costumes, o livro de Huxley inspirou a criação de uma banda que investiria na supressão de barreiras musicais e performáticas. Nas apresentações iniciais da banda ele se mostrava ao público de costas e no decorrer da trajetória do The Doors tudo podia acontecer no palco. Em 21 de agosto de 1966, no Whisky-A-Go-Go, seriam despedidos após a famosa sequência de versos assassinos e incestuosos que finalizaria a canção The End, mas que os daria uma contrato para um primeiro álbum. A partir daí as performances de Jim começaram a se tornar mais elaboradas e a improvisação chegava ao ponto de surpreender seus colegas de banda, pois imprevisibilidade era seu nome e esta postura, aliado a seus versos que beiravam a poesia beat, consolidaram sua imagem de rockstar rebelde, arauto de uma geração e personificação da tríade sexo, drogas e rock n’ roll.

Não tardou para seu rosto ir parar até mesmo em revistas adolescentes e arrancar elogios de personalidades como John Lennon. Também não demorou a seu personagem de palco extrapolar as cortinas e adentrar sua vida pessoal. Por consequência, a dependência de álcool se fez presente levando-o a um desfecho aquém de sua importância. Nesta época passava a maior parte do tempo bêbado, entrava em conflitos desnecessários com seus colegas de banda e ainda investia em suas esposas. Era possível separar Jim em dois momentos dispares: o dócil quando sóbrio e o perigoso quando alterado por drogas, um comportamento que já se fazia presente desde os primeiros momentos da banda. Entretanto, as inconsequências do xamã Morrison começaram a trazer enormes problemas para a imagem da banda. Em Connecticut, o vocalista teria tirado o quepe de um policial e o lançado para a plateia. Momentos antes, um policial havia atirado spray de pimenta em Morrison nos bastidores do show, interrompendo um enlace amoroso mais forte. Mesmo com este clima agressivo dentro da banda, na virada de 1967 para 1968 o The Doors era, quiçá, a maior banda de rock em solo americano. Sendo assim, fica a pergunta: Por qual razão um dos três símbolos de uma geração (Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison) não estava presente no maior festival de rock de todos os tempos?

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The Doors em maio de 1969: Afigura de Morrison estava longe daquele eternizada pelos devotos fãs

Apesar da existência de uma resposta oficial para esta questão, creio que ela veio adornada em pedrarias com o intuito de encobrir a verdade: em agosto de 1969, o The Doors era uma banda quase esfacelada. As gravações do álbum The Soft Parade, lançado em julho de 1969, foram muito desgastantes, com Morrison abusando do álcool, se mostrando cada vez mais imprevisível e a gravação estendendo seu tempo previsto, elevando consideravelmente os custos. Além do mais, as canções do novo álbum estavam distantes da sonoridade original, adicionando elementos de pop e instrumentação diferente do usual. Esse não seria o problema maior, pois as rádios e a opinião pública já havia se voltado em um movimento contra a banda, em decorrência do julgamento de Jim Morrison, acusado de ato obsceno e utilizar linguagem obscena. Em meados de 1969, os shows foram cancelados e os promotores não queriam mais contratá-los. Verdade seja dita, o que ocorreu no primeiro dia de maio de 1969, em Miami, não condiz com as acusações sofridas pelo vocalista, que adentrou o palco bêbado e após a primeira canção começou a provocar a plateia, mas em nenhum momento houve ato obsceno, quando muito uma dança ousada quando Jim fora atirado à plateia por um policial. Porém, fora acusado de exibir sua genitália para o público, julgado e condenado, se livrando da prisão após revogação. A minha leitura dos eventos mostra um Jim sem controle de si, fisicamente longe do Rei Lagarto dos dias passados, escorraçado publicamente e injustamente e interpelado pelos companheiros de banda sobre seu alcoolismo. Era evidente que naquele momento ele não tinha condições de encarar um festival como o de Woodstock, mesmo se este fosse uma mera cópia do Monterey Pop Festival. Ou seja, Morrison foi a vida, a morte e a ressureição do The Doors (os dois próximos álbuns seriam guiados por ele e recolocaria a banda em seu lugar) e mesmo ele insistindo na valorização de seus companheiros de banda de modo igual (obrigou, certa vez, um programa de TV a anuncia-los novamente como The Doors, ao invés de Jim Morrison and The Doors como fora feito), sua imagem se tornou maior que a banda, foi romanceada no cinema e sua morte em Paris o transformou em um mártir da música, mas por sua causa eles não estavam em Woodstock.

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